O que parecia básico em 2026 pode voltar a ser diferencial. A crise ram faz fabricantes estudarem cortes justamente em pontos que muita gente já tratava como garantidos no celular novo: mais memória, acabamento melhor, leitor de digitais mais avançado e telas mais refinadas.
Para o consumidor brasileiro, isso pesa de dois lados. Primeiro, porque aparelhos na faixa de R$ 2 mil podem entregar menos do que entregavam. Segundo, porque a ficha técnica pode continuar chamativa no papel, mas com escolhas mais modestas no uso real, como 8 GB de RAM em vez de 12 GB e soluções mais baratas em construção e biometria.
Como a crise ram faz os celulares de 2026 encolherem por dentro?
O corte mais visível pode estar na memória. A aposta é trocar versões com mais RAM por combinações que preservem o apelo comercial do armazenamento.
Segundo informações publicadas por Digital Chat Station, uma das estratégias consideradas é o retorno da configuração com 8 GB de RAM e 512 GB de armazenamento, substituindo variantes com 12 GB. Na prática, é uma forma de manter um número forte na vitrine, já que 512 GB continua chamando atenção, enquanto a redução da RAM tende a ser menos perceptível para parte do público no primeiro contato.
No dia a dia, essa troca não é irrelevante. Para quem usa muitos apps abertos, alterna entre câmera, redes sociais, mapas e jogos, a diferença entre 8 GB e 12 GB costuma aparecer na retomada de aplicativos e na folga para os próximos anos. Já para uso mais simples, 8 GB de RAM ainda pode dar conta, mas deixa menos margem para envelhecer bem.
O ponto curioso é que a pressão de custo não atinge só a RAM. Ela abre espaço para decisões em cascata, e é aí que o pacote inteiro do celular pode começar a piorar.
Quais recursos podem voltar atrás por causa da crise?

Não é só memória. Os vazamentos apontam para um retorno de soluções que o mercado vinha deixando para trás.
Um dos exemplos é a volta mais ampla do suporte a cartão microSD por meio de slot híbrido para cartão SIM ou armazenamento externo. A lógica é simples: ampliar espaço com custo menor, sem depender tanto de chips internos mais caros. Para muita gente no Brasil, isso pode até soar positivo, já que microSD ainda faz sentido para fotos, vídeos e arquivos offline.
Ao mesmo tempo, outros retrocessos são menos agradáveis. Molduras de policarbonato podem reaparecer de forma mais comum, inclusive em intermediários perto de R$ 2 mil. O material é mais barato e mais leve, mas passa uma sensação menos premium que o metal. Na prática, é o tipo de corte que o consumidor percebe assim que pega o aparelho na mão.
Também há expectativa de troca no leitor de digitais sob a tela. Sensores ópticos de foco curto devem substituir módulos ultrassônicos, que custam mais. Funciona, claro, mas a experiência pode perder parte daquele refinamento que virou padrão em aparelhos mais ambiciosos. E isso prepara o terreno para outro possível recuo, agora na parte que mais chama atenção no uso diário: a tela.
Por que a tela pode ser a pior notícia para o usuário?
Se os rumores se confirmarem, a tela pode concentrar o corte mais visível. E esse é o tipo de mudança que ninguém precisa procurar em benchmark para sentir.
As informações citam a possibilidade de painéis de 90 Hz com entalhe em formato de gota d’água aparecerem em telefones mais caros. Isso representa um passo atrás em relação às telas de 120 Hz com furo no display, solução que vinha se consolidando até fora do segmento premium.
No uso real, 120 Hz melhora a sensação de fluidez ao rolar páginas, alternar menus e navegar em redes sociais. Já o furo na tela costuma passar uma impressão visual mais atual. Quando um aparelho mais caro volta para 90 Hz e entalhe em gota, o consumidor sente que está comprando algo menos moderno, mesmo sem olhar a ficha técnica inteira.
Minha leitura é direta: entre todos os possíveis cortes, esse é o que mais incomoda. Moldura de plástico pode passar, microSD ainda tem utilidade, mas uma tela mais simples muda a experiência o tempo todo. Não por acaso, a crise ram faz o debate sair da memória e chegar ao coração do produto.
Esse cenário também ajuda a entender a origem do problema, que não está apenas nas marcas de celular.
Do centro de dados ao seu bolso: hype de IA ou retrocesso disfarçado?

A pressão vem de fora do mercado de smartphones. A alta demanda por memória para inteligência artificial está reduzindo a oferta para celulares e elevando custos.
Relatórios de mercado já vinham apontando que empresas de IA estão comprando grandes volumes de componentes para centros de dados. O resultado é menos oferta para produtos de massa, como celulares. Em aparelhos com 8 GB de RAM e 256 GB de armazenamento, esses itens respondiam por 14% e 11% do custo total no primeiro trimestre de 2026. A projeção é de salto para 20% e 16% no trimestre seguinte.
Quem mais sofre são os modelos de entrada e intermediários, justamente porque trabalham com margens menores. Quando um componente sobe demais, a marca tem poucas saídas: aumentar preço, cortar especificações ou compensar em acabamento e tela. Não por acaso, o mercado também deve reforçar a otimização de software e o suporte prolongado como argumento de venda. Fabricantes como a Samsung no Brasil já ajudam a mostrar como software virou parte central do valor percebido.
Meu veredito é simples: se você pretende trocar de celular em 2026, vale olhar além da combinação entre RAM e armazenamento. Um aparelho com 8 GB de RAM e 512 GB de armazenamento pode parecer ótimo na vitrine, mas talvez esconda tela de 90 Hz, entalhe em gota, moldura de policarbonato e leitor biométrico mais simples. Para quem prioriza longevidade e experiência diária, esse pacote pode não compensar o corte escondido.







